SIM! SERRA E DILMA ESTÃO EM CAMPANHA.

José Serra é candidato à presidência desde que perdeu a eleição presidencial em 2002.

Só não tentou em 2006 porque não quis enfrentar o presidente Lula ao mesmo tempo em que deixava a prefeitura de São Paulo. Imaginemos ele no lugar de Geraldo Alckmin, perdendo as eleições e absorvendo severas críticas por abandonar o terceiro cargo executivo mais importante do país com menos de dois anos de exercício. É a tal coisa. Se ele tivesse encarado a disputa em 2006, o PSDB não teria candidato para o governo de São Paulo. E consequentemente pairava a ameaça de ficar sem nenhuma das 3 jóias da corôa (presidência da república, governadoria de São Paulo e prefeitura de São Paulo).

Logo, ele preferiu esperar e enfrentar Aécio Neves e o candidato do governo Lula, ao invés do próprio ex-metalúrgico, o que, aliás, foi inteligente porque preservou os interesses do partido.

Na época eu acreditava que ele iria para o tira-teima com o atual presidente, mas não sou assim tão versado em política e agora, vendo em perspectiva, noto que provavelmente o alto tucanato interveio, temendo perder o governo de São Paulo, sem contar o risco do próprio ocaso político do atual governador, além, claro, da derrota na eleição presidencial, que não era nem um pouco implausível em meados de 2006.

Portanto, Serra está em campanha sim senhor!

Como a ministra Dilma Roussef também está desde o primeiro momento em que seu nome caiu no agrado do presidente Lula.

Dilma sofre com as resistências dentro do PT, mas conta com o melhor cabo eleitoral possível. De praticamente desconhecida do grande público, hoje abocanha 6 pontos percentuais nas pesquisas preliminares de intenção de votos, e isso não decorre certamente de sua atuação competente como ministra, coisa que pouquíssimos brasileiros acompanham. Ela é alçada a esse patamar por uma campanha orquestrada que, se não é considerada eleitoral, tem por finalidade fazê-la entrar em 2010 como notória escolhida do atual presidente, pronta para enfrentar José Serra e seu apenas suposto favoritismo.

Sem contar Aécio Neves. Mas este está cada dia mais enfraquecido dentro do PSDB e faz um governo apagado em Minas. Aliás, ele desapareceu da mídia de uns meses para cá, reflexo das dificuldades que teve na eleição do ano passado em Belo Horizonte, quando foi incongruente em aliar-se ao PT. Ou seja, Aécio hoje só representa algo em torno de uma conciliação com o PT e o PMDB, ele simplesmente não consegue encarnar qualquer sentimento oposicionista, de tal forma que, numa disputa contra Dilma, arriscaria fazer o eleitorado refutá-lo como segunda opção do presidente e não como a primeira da oposição.

Escrevo tudo isso para comentar sobre a investigação do TSE sobre supostos atos de campanha antecipada de tais agentes.

É difícil impedir que isso aconteça. No Brasil, não existem restrições aos discursos de inaugurações de obras ou mesmo à personalização da política, dada a fraqueza considerável de todos os partidos, se vistos como entidades programáticas.

Na ausência de partidos, só se constrói um candidato que esteja eternamente em campanha. Fernando Henrique Cardoso virou presidente porque capitaneou o Plano Real e desde que a moeda foi lançada, todo mundo em Brasília, desde o jardineiro do Planalto até o então presidente Itamar Franco sabiam que ele seria candidato. Luis Inácio Lula da Silva virou presidente porque já era conhecido do eleitorado e soube parecer oposição ao modelo político tucano, era uma opção construída por campanha permanente ao longo dos anos. Fernando Collor virou presidente porque soube capitalizar a indignação popular contra a corrupção em um determinado momento histórico do país, foi construído a partir de um sentimento generalizado.

Todos eles fizeram campanhas antecipadas, todos construiram suas imagens não dentro de partidos, mas no tecido social a partir de ações que chamaram a atenção da opinião pública.

Querer que José Serra ou Dilma Roussef não sigam a mesma receita é no mínimo bobagem, porque ninguém vai arriscar entrar numa campanha milionária apenas com apoios dentro de nossos partidos políticos erráticos e disfuncionais. Eles estão jogando sob as regras impostas pela inexistência de partidos. E sem partidos, o que sobra é usar a máquina dos governos, as inaugurações e os eventos que decorrem do poder.

E essa é uma questão que só resolve-se com a profissionalização do Estado, ou seja, com a diminuição das estruturas partidárias dentro do poder e não em função da conquista dele, como é nos países de melhor tradição democrática. E isso significaria diminuir drasticamente a quantidade de cargos em comissão e a possibilidade que eles geram dos partidos manusearem verbas públicas em favor de atos de campanha por este ou aquele candidato.

Mas impedir um governador ou uma ministra de aparecer em público e construir uma imagem não dá, isso decorre da própria natureza dessas funções.