SILÊNCIO ENSURDECEDOR

Nelson Rodrigues, de quem eu nunca fui fã, teria dito algo como esse título, um silêncio ensurdecedor, ao constatar a reação das autoridades nacionais depois do acidente em Congonhas.

Mas é realmente ensurdecedor o silêncio do governo.

Ensurdecedor porque os áulicos, os puxa-sacos, os bolivarianos de carteirinha e os jornalistas devidamente calçados fazem enorme barulho para evitar que respingue responsabilidade no senhor presidente, mas especialmente para que não rolem cabeças de companheiros que, por falta de qualificação, não arranjariam empregos tão bem remunerados como os cargos em comissão deferidos pelo aparelho partidário no governo.

O problema é que não está adiantando muito e as manifestações singelas acontecem pelo país afora, não para responsabilizar o presidente, mas para alertá-lo da incompetência visceral de seu governo, começando pela verborragia irremediável de dois ministros (Turismo e Fazenda), o sono pungente de um terceiro ministro, o da Defesa, e passando pelos atos tresloucados de assessores extremamente próximos do presidente, como o senhor Marco Aurélio Garcia, que despacha há poucos metros do gabinete de Sua Excelência.

Mas o presidente recolhe-se.

É óbvio que o presidente também está comovido com a tragédia, mas seus atos denodam total falta de controle sobre seu governo porque, passada uma semana do acidente, não foi capaz de uma medida sequer tendente a amenizar e buscar soluções para o cáos aéreo, apenas reuniões e palavras ao vento, sem demitir pelo menos uma parte dos comissionados que deram causa ao problema (o ministro da Defesa e a diretoria da INFRAERO, por exemplo), ao nada fazerem durante o primeiro mandato, e especialmente desde o acidente com o avião da Gol.

Fica difícil para um usuário do sistema aéreo, ele deve pensar: durma-se como, com um silêncio desses?

PS: Hoje, 25/07, a presidência da república informou a troca do ministro da defesa, saindo o atual, entrando Nelson Jobim, ex-ministro do governo FHC (ora, quem diria?), ministro sposentado do STF. Também especula-se que haverá mudança na cúpula da INFRAERO... não o ideal, mas, em verdade, um começo. Sinal de que nem todos os protestos são ignorados por Brasília.