E OS JUROS, HEIM?

De repente, o clima modorrento do governo Dilma é abalado pela decisão da presidente em determinar um corte substancial nas taxas de juros cobradas pelos bancos públicos, taxas estas que chegaram a índices 35% menores.

Alguém como eu, que há tanto tempo reclama das taxas de juros pornográficas praticadas no Brasil por bancos incompetentes e gananciosos não pode deixar de elogiar a iniciativa. Mas ao mesmo tempo, fico me perguntando porque medida tão simples não foi tomada antes, por exemplo, pelo ex-presidente Lula, que tinha na cadeira de vice nada menos que José Alencar bradando aos quatro ventos contra os abusos financeiros praticados no país, a prejudicar pessoas e negócios e atrapalhar o crescimento da economia.

O fato é que redução substancial das taxas de juros em bancos públicos vai forçar os bancos privados a fazerem o mesmo pela simples razão de que os "spreads" praticados no Brasil são irreais, eles embutem uma lucratividade imoral muito maior que os riscos da operação e da inadimplência da qual os bancos vivem reclamando mesmo emprestando dinheiro sem cadastro prévio, como têm feito no financiamento de veículos nos últimos 8 anos.

Aliás, uma das razões da inadimplência alta no crédito brasileiro é justamente a incompetência visceral dos bancos pátrios, que são mal administrados, que transferem recursos para financeiras que emprestam sem critérios no microcrédito, que contratam escritórios de advocacia ruins que cuidam de suas cobranças sem critérios de qualidade, que cedem a pressões de políticos de raia miúda e que pagam bônus fantásticos para diretores nem sempre honestos e comprometidos com a sanidade das operações das instituições.

E não me venham dizer que isso é passado, porque os bancos brasileiros só não embarcaram na crise que assola a Europa e os EUA porque estão sob rédea curta no Brasil, desde que o PROER do então presidente Fernando Henrique Cardoso saneou o sistema ao custo de uma taxa SELIC de mais de 30%, recessão, dor e sofrimento para todo o povo brasileiro. Os bancos brasileiros só não caíram na farra do sub-prime porque o governo brasileiro que os salvou impediu que fizessem mais essa loucura para inflar os bônus trimestrais de seus diretores, como aconteceu com quem emprestou dinheiro para a epifânia consumista dos norte-americanos, gregos, islandeses e irlandeses.

Mais ainda constatamos que, premidos pela necessidade mercadológica de se adequarem a novos tempos, os mesmos banqueiros ainda tiveram a pachorra de exigir do governo a diminuição do IOF, dos depósitos compulsórios sobre empréstimos e medidas para "conter" a inadimplência que eles mesmos nada fazem para combater. Em outras palavras, eles querem que o governo assuma parte dos seus custos para diminuírem as taxas de juros, praticamente se declararam incapazes ou, pior, de má-vontade em cortar na própria carne gorda e tomarem uma medida de bem para todo o país.

É certo que o impacto da diminuição de taxas dos bancos públicos ainda não foi medido, e que a complexidade do sistema pode fazer com que demore, ainda, para que ocorra uma redução geral de "spreads" na economia. Existe muita burocracia para se trocar de banco no Brasil e agilizar esse processo competitivo, mas é o primeiro passo de algo que é vital para o Brasil, que ainda pratica o segundo maior 'spread" do mundo e que precisa equacionar essa questão em vista de outra muito falada nos dias de hoje, que é a competitividade do país em escala global.