DE PRÓTESES DE SILICONE A BOMBAS DE GASOLINA


O Brasil continua a ser a pátria do absurdo, o lugar "sui generis" onde coisas estranham acontecem e são tratadas como algo normal, por mais que impactem no bolso das pessoas.

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Prótese de silicone virou modismo.

Quase todas as atrizes, cantoras e beldades famosas, quase famosas ou ainda as que pretendem ficar famosas às utilizaram mesmo que não precisassem sequer por motivos estéticos. O verbo "turbinar" entrou na moda em programas de fofocas e revistas de TV criando um mercado consumidor que logo foi atendido com uma solução de crédito.

Hoje é possível implantar prótese de silicone em qualquer parte do corpo em suaves prestações, a ponto de meninas de 16 anos pedirem o procedimento como "presente de Natal" para pais idiotas que não raro realizam o desejo da imbecilzinha que nem virou mulher ainda, mas que já projeta uma forma de alcançar a fama ou ao menos um marido rico e babão.

E se alardeiam aos quatro ventos os novos seios das celebridades e a "estréia" na ilha da revista de famosos, mas esquecem de dizer que se trata quase sempre de um implante com data de validade, que precisará em algum momento futuro de manutenção e/ou troca sob pena de afetar severamente a saúde da usuária, como aconteceu com uma das mais famosas atrizes brasileiras, ex miss Brasil por Santa Catarina.

E todo procedimento médico tem risco, como o comprovado das próteses serem mal fabricadas ou mal escolhidas (talvez por mais baratas para atender a demanda crescente e descontrolada, já pensaram nisso?) causando um episódio de risco coletivo de saúde.

O SUS vai proceder a troca das próteses de silicone falhas usadas por mulheres que adquiriram o procedimento sem planos de saúde, sendo que estes terão que cobrir os custos da troca para suas clientes.

Quem é atendida por plano de saúde não me interessa, o problema é dela com sua operadora.

Mas me irrita que o SUS assuma o custo da vaidade desmedida de mulheres que compraram implantes de silicone por modismo em suaves prestações e sequer tenham se preocupado em fazer um seguro ou, pior, não tenham sido instruídas pelos médicos a fazerem seguro em razão da quase certeza da necessidade de manutenção das próteses.

Que o SUS deve cobrir o procedimento em primeiro momento, eu aceito porque vida é vida e não se deve pensar duas vezes em preservá-la. Mas penso que logo após fazê-lo, deve procurar o médico que fez o implante inicial e cobrar dele o custo da reposição, com a exceção óbvia e ululante do procedimento naquelas mulheres que fizeram a operação por motivos fundamentados de saúde (como as que perderam as mamas em razão de câncer).

Porque se não o fizer estaremos estatizando a vaidade. O SUS vai pagar pela vaidade de pessoas que não precisavam aumentar os seios por motivo algum, mas o fizeram por modismo. Em palavras mais claras: dinheiro que deveria ser usado para tratar de câncer, para atender gestantes, para melhorar os exames de todas as outras doenças, está sendo jogado fora para atender pessoas fúteis e vaidosas que acorreram ao sistema privado e ao crédito para alimentar um desejo criado por terceiros, já que o SUS não cobre o procedimento salvo por motivos fundamentados, como o do exemplo que citei.

Aceitar que não ocorra punição pelo uso irresponsável da cirurgia e da prótese de silicone em casos assim é o mesmo que pedir o SUS passe a cobrir implantes capilares, chapinhas, escovas progressivas e drenagens linfáticas, tudo em favor da vaidade alardeada pela mídia de futilidades, por mais que isso tire dinheiro dos tratamentos pré-natais ou de câncer. É o fato.

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Outro episódio "sui generis" acontecido esta semana é o da adulteração de bombas de combustíveis em postos de Curitiba e região.

O indivíduo, aproveitando-se da sanha governamental em informatizar a operação dos postos de gasolina e usar disso para aumentar barbaramente e aos níveis da insanidade a burocracia na gestão tributária deles, resolveu usar o sistema para se dar bem em um contexto em que, ao mesmo tempo em que não sonegava impostos, roubava dos consumidores.

Ele adulterou o software de controle das bombas para que elas liberassem menos combustível para o consumidor, mesmo informando que tinham depositado todo o volume adquirido. Ou seja, o consumidor pagava e declarava 20 litros e levava 18, os 2 ficavam com o dono do posto e os órgãos públicos não se preocupavam com isso, porque para a fazenda isso era altamente vantajoso, afinal, se o indivíduo ficava com o combustível em estoque ele continuava vendendo e a receita arrecadava mais pela simples razão de que a cada 20 mil litros, 22 mil eram tributados na lógica do sistema em que a sonegação é praticamente impossível, mas na qual o governo não se importa se a pessoa venda mais desde que pague os tributos (no caso, a maior).

O azar do golpista foi ser pego por um repórter insistente informado do esquema por donos honestos de postos de gasolina, que não aguentavam mais a concorrência desleal.

E o resultado que a imprensa paranaense teima em esconder é que o governo estadual arrecadou impostos a mais e, sabendo do esquema havia ao menos um ano, nada fez para atacá-lo.

Aconteceu o contrário das próteses de silicone, privatizou-se o roubo com chancela da coisa pública e o prejuízo ficará no bolso dos otários que abasteceram seus carros nos estabelecimentos e provavelmente chutaram os pneus com raiva, imaginando que estavam desregulados e gastando mais que a média normal.

Enfim, um país "sui generis", onde o bolso dos honestos está sempre sob ataque de alguém.